quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O dia em que fui flanelinha de um flerte

Almoçávamos eu e Paula Bianchi na última semana de férias quando ela me contou de seu projeto: "A vida sexual da mulher hétero solteira no Rio de Janeiro". O adendo do hétero no título fica por minha conta.

Estávamos então relembrando as histórias de Paula - algumas que acompanhei de perto, outras de longe - e dando muitas risadas, quando então fui lembrada por ela do dia em que fui flanelinha de um flerte.

A coisa andava lenta. Paula já tinha ido passar um temporada na Europa e o rapaz - cuja identidade preservarei - também já tinha ido dar uns bordejeis internacionais. Nos desencontros, mensagens trocadas. Convites para chopps futuros e etc.

Era primeiro de janeiro de 2013. Nós tínhamos passado a madrugada do primeiro dia do ano trabalhando, cada uma para um veículo de comunicação. Sóbrias num mar de bêbados em Copacabana. Fim da labuta por volta das 4h. Eu já tinha caminhado aquela princesinha do mar que já não me aguentava. Em meio a busca de personagens, fotos e entrevistas com artistas que animavam a virada do ano e checagem de ocorrências nos bombeiros, eu só queria encontrar os amigos para um brinde posterior, ver o sol nascer no Arpoador e sentir que estava viva, vivinha e depois dormir o sono dos justos.

Assim fizemos. Derrotadas pelo cansaço no Arpoador, jurávamos que veríamos o sol nascer, independentemente da insistência maldita de um vento escroto que teimava em nos expulsar daquela Ipanema. Somos fortes. E lá ficamos até as 6h30. Um sol mixuruca, o vento teimoso e uma água gelada que me desencorajou a mergulhar de manhã - tradição esta que sempre mantive.

Demos de ombros e concordamos que a decisão mais sensata era procurar a padaria mais próxima e irmos dormir bem alimentadas. Eis que entre o mar de garis laranjinhas que limpavam a praia, encontramos o dito cujo. Primeiro dia do ano. Era a desculpa perfeita para o camarada convidar Paula para quitar a pendência do convite para o choppe. Ou que ela o convidasse. Nada feito.

O ano seguiu e o baile também. Praias, histórias, novos casos e no meio deles uma ida à Pedra do Sal. O sujeito aparece lá. Estaciona na nossa roda e de lá não arreda do pé. Arqueio as sobrancelhas com um sorriso de canto e falo entre os dentes para Paula: "é hoje".

Cerveja para lá, samba para cá, fotos de aniversário de Tassia, ou seja, isso já era (pasmem!) setembro!! O rapaz chama a gaúcha para comprar uma cerveja. E eu lá, na maior expectativa, pergunto na volta de finalmente rolou. Nada. A demora do bonde aumentava minha impaciência. Eis que estávamos na seguinte configuração: O menino na frente, Paula atrás e eu de frente para os dois. Decidi então que precisava fazer alguma coisa. Como um flanelinha, comecei a guiar os passos de Paula.

"Põe a mão no ombro dele", disse também entre os dentes enquanto ele prestava atenção na música. Vermelha, a gaúcha obedeceu. "Agora coloca a outra". "Chega mais perto". Bom, parece que depois disso o rapaz não tinha mais o que fazer, a não ser se virar e beija-la.

Entreouvido no trem

Moça dá play no áudio do whats:

- Po, desculpa mesmo. Não deu para pagar o boleto. A cerveja estava muito barata no Extra. Mas eu vou fazer de tudo para pagar até o Natal, para você não ficar sem este dinheiro. Se a gente não se falar mais, um Feliz Natal aí. Valeu.

~ prioridades ~

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

from: bela | to: fê



Oi, amiga!

Como está tudo aí? Você está bem? Está feliz? Teve bolo no seu aniversário? Já faz 5 anos que a gente não comemora juntas. Desde que você se foi eu fico confusa. Quero te homenagear no dia 7 de maio porque é quando nós aqui deste plano lembramos que você se foi. Mas lembro de você com mais alegria no dia 11. Você gostava dos aniversários, embora sempre ficasse tímida na hora do parabéns.

Nossa, Fê, desculpa eu ter levado tanto tempo para escrever novamente. Parece que quanto mais velhos ficamos, maior a autocrítica. Sentimos vergonha de tanta coisa... Bobagens da vida adulta.

Eu quis te escrever porque você me visitou no meu sonho. Lembro muito pouco. Passei a manhã inteira tentando me recordar dos detalhes e com a correria do dia já não me lembro de nada. Mas era um sonho bom, a gente se falava, conseguia se comunicar e eu fiquei muito feliz.

Logo depois da sua partida, você vinha me ver nos meus sonhos com freqüência, depois foi diminuindo... Esqueceu de mim? Ficou chateada com alguma coisa? Com raiva?

Olha, amiga, me desculpe se não dou toda a atenção do mundo para a sua mãe. Eu demorei um tempo, eu sei, mas agora a gente se fala no Whatsapp. Me sinto muito impotente quando me faltam as palavras para ela. Mas ela parece bem, tem uma nova criança que lhe da muito amor. Não sei quem ele é. Mas estão sempre juntos nas fotos do Facebook.

Ah, amiga, não sei se alguém te contou, mas o Dani está conseguindo realizar o sonho dele de viver de música. Ele participou este ano de um programa de novos talentos na tevê. Achei que você ficaria feliz em saber, mesmo ele tendo terminado daquele jeito estranho com você. A banda dele não ganhou o programa, mas eles conseguiram divulgar o trabalho e estão fazendo shows por aí. Fizeram um em São Pedro no fim de semana passado. Também vi no Facebook.

É, não to mais no Rio. Tem dois anos que vim para São Paulo. "Sempre indo para mais longe de mim", você me disse quando eu falei que quem sabe um dia viria. No fim das contas, você foi para bem mais longe, né? Nem sei como faço para ir aí te visitar. 

Como são os aniversários aí? Como é que se comemora? Tem algum ritual? Ou é só mais uma bobagem da vida terrena?

Tanta coisa aconteceu por aqui... não sei como é a vida aí, mas você faz muita falta do lado de cá. O mundo anda tão esquisito e as coisas aqui no Brasil... Me lembro de quando você estava estagiando no fórum e dizia que queria ser defensora pública. Acho que precisávamos de alguém como você numa defensoria. Tanta gente escrota fazendo quem tem menos passar perrengue. O Brasil está uma tristeza. Temos um presidente agora que tem como lema "retrocesso de 20 anos em 2". 

Os Estados Unidos perigam ter seu pior presidente. Um tal de Donald Trump. Aquele empresário. Um horror. O Reino Unido votou para deixar a Europa e está criando um muro para que refugiados não entrem lá. É verdade, esqueci de dizer, a Síria está em guerra há mais de 5 anos. Mais ou menos o mesmo tempo em que você partiu. Ta vendo, eu sempre digo, as coisas eram bem melhores quando vc estava aqui.

A novidade boa é que agora tenho meu cantinho. Ia ser legal se você pudesse vir me visitar um dia desses. Namoro uma menina que nasceu um dia antes de você. Vocês se parecem em algumas coisas. Rs

Queria passar uma tarde batendo papo com você, rindo e sei lá, tomando uma cerveja, uma caipirinha, um café. Sinto muita saudade. Espero que a gente possa se ver em breve.

Um beijo.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Projeto Genoma [parte II]

Respiro fundo com a notícia. Não esperava, mas não me choquei. Não bati a cabeça na parede como reagi quando Fernanda se foi. Também não gritei incrédula e inconformada. Processei a informação e contei para minha namorada, que acordou comigo falando em voz alta. Reportei a ela apenas, como faço no cotidiano do meu ofício. Sem drama, sem desespero. E isso me balançou.

Aline descobriu o câncer aos 20, durante a faculdade. Cursava Arquitetura na UFRJ. E por mais clichê que seja dizer que ela estava no auge da sua juventude, de fato estava. Tinha deixado uma vida inteira em Araruama para ampliar os horizontes no Rio.

Abri o Facebook. Vi lindas homenagens e então chorei. Finalmente. Foi um choro contido, mas o suficiente para eu relaxar e entender que meu quinhão de humanidade ainda me resta. Mesmo que o mundo cão que leio diariamente no meu trabalho me diga que não. 

Eu e Aline tínhamos uma diferença de 5 meses de idade. Nunca fomos próximas, nem quando me mudei para a cidade onde ela nasceu e morava. O que tínhamos em comum: a afinidade com Danilo. Afinidades diferentes, obviamente. E talvez essa disputa nos distanciasse mais do aproximasse. No fundo, queríamos afirmar a proximidade com ele. O primo mais velho que sempre causava com a sua excentricidade. O cara que usava saias e pintava as unhas de preto na tradicional família católica araruamense. Eles netos da mesma avó. Um laço forte. E eu que gostava de relacionar a minha excentricidade à dele.

O tratamento do câncer foi sofrido. Sete anos de idas e vindas ao hospital. Uma cirurgia que prometeu uma vida saudável. Retorno à vida cotidiana, faculdade, novo namorado. Câncer volta. Remédios foram ineficazes, descobriu-se. Nova cirurgia, outra promessa. Novo tratamento. Angústia, raiva, fé, desistência, artigos no Google, depoimentos encorajadores, depoimentos frustrantes. Emocional em frangalhos. 

Volto para o meu questionamento. Lembro de Diego. Lembro de Rodrigo. Passa uma semana e minha mãe vem me visitar. Rodrigo está mal novamente. Deprimido por ter de usar uma bolsa excretora. Minha mãe narra as novidades sombrias pelas quais ele passará e na minha cabeça azoes azinhos se multiplicam e martelam. Qual é a probabilidade? Somos 6 meninas e um menino. Os netos da vó Esmeralda. Teremos um de nós o quinhão da genética da bisa Edy?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Projeto Genoma [parte I]

Há coisas que são irreparáveis. Como aquela aquela amizade com uma rachadura que não volta a ser a mesma. Na mesma toada, a genética.

Os  azões azinhos eram interessantes, mas não o suficiente para eu querer compreendê-los às 7h da manhã daquelas aulas de Biologia do Ensino Médio. Há certas coisas que negamos porque assim preferimos. Outras porque somos incapazes de lidar. Talvez eu fosse incapaz de lidar com a genética naquele tempo. Justamente pela negação.

Esmeralda, minha avó materna, teve 3 irmãs - agora todas mortas - e 4 irmãos; dois deles ainda vivem. Assim simétrico mesmo: (para alegria de virginianos e outros metódicos no geral) 4 mulheres e 4 homens.

e de Esmeralda, a bisa Edy deixou de herança não só o nome para minha mãe, mas uma sentença em forma de genes para 3 bisnetos: um diagnóstico de câncer. 

Apita o celular. 342 mensagens da noite de sexta para sábado. Em grupos do aplicativo, pessoas falam de trabalho, outras apenas comentam qualquer bobagem. Tenho muito sono, não leio nada. Bato o olho numa mensagem solitária da minha mãe: "perdemos nossa Aline (acompanhado de um emoji)".

Aline, Rodrigo e Diego. Todos netos de filhas mulheres da bisa Edy. Antes de soltar um "que gene machista", lembro vagamente das influências dos cromossomos X e Y das aulas de Marco. Nunca fui aplicada em ciências biológicas, mas vá, memória ainda tenho, pensei. E o Temer ainda quer cortar disciplinas, resmunguei antes de apurar. Sim, bisa Edy também teve câncer, segundo dados revelados pela minha mãe mesmo.

Custo a acreditar. Não via Aline fazia tempo. Tinha notícias através da minha mãe, andava e virava ela estava às turras com a quimioterapia, mas tudo parecia controlado. Há 7 anos convivíamos com o câncer dela, não parecia que ela iria assim.

Mas pera lá, que merda é essa? Começo a perceber a conexão. Três primos, da mesma geração, netos de 3 irmãs. Minha boca ficou seca. Compreendi genética em 3 segundos. E danei a tentar me lembrar daqueles cálculos de probabilidade. Azão azão vezes azinho azinho. Ou seria azinho azão vezes azão azinho. Puta merda, não me lembro. Qual seria a probabilidade de um neto da minha avó reproduzir o gene? 75%? 100%?

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Caretas de Paris, New York, sem mágoas estamos aí



Faz duas semanas. Uma eternidade para esses tempos efêmeros cujos segundos transformam a paz numa tormenta (notícias, atentados, e tome novidades que não damos conta). Mas vi Freehelds, ou o Amor por direito em português.

Julianne Moore e Ellen Page encenando uma história real e trazendo à tona a briga por um direito simples: o reconhecimento da união entre duas pessoas do mesmo sexo.

A atriz de "As Horas" agora é Laurel Hester, uma policial dedicada, responsável pela investigação de casos importantes - como o de tráfico de drogas - em sua cidade, nos Estados Unidos. É respeitada pelos colegas e tem um parceiro de atuação na polícia que ~ no papel de galã ~ claramente espera por uma brecha para tentar algo com ela. Um dia, numa dessas missões de trabalho Laurel conhece Stacie Andree .

Como na vida real, a dificuldade de reconhecimento e espaço na sociedade acontece o tempo todo. Laurel Hester não sai do armário no trabalho para não perder o respeito dos colegas, também não tem contato com familiares. Stacie por sua vez tem o apoio da mãe. Ficam juntas e compram uma casa, mas permanecem se apresentando como "roommates".

Mas na vida como ela é não adianta fazer planos para viver para sempre à sombra. Ela vai fundo e incomoda quem não quer ser incomodado e tira quem não quer incomodar do que eu chamaria de zona de conforto. E foi o que aconteceu.

Laurel descobre um câncer. No início dos anos 2000, quando os tratamentos ainda eram mais precários que agora. Sabe que seu tempo na Terra é curto e quer deixar sua casa para sua mulher. Mas a polícia não permite, vai contra as regras.

É quando um representante da causa gay resolve fazer barulho. Arruma um monte de gente para ir até o tribunal especial da polícia e incomodar. Dizer 'ei, estamos aqui e não vamos dar sossego enquanto não nos enxergarem e derem a Laurel o mínimo.

Um parágrafo importante:
Laurel não queria gravar vídeo, participar de nada porque não queria ser parte de uma "bandeira". Apenas queria seu direito de igualdade. Algo que acontece muito neste universo e em muitos outros. Quem queria ser considerada feminista há dois anos? Mulheres esclarecidas e até algumas de esquerda preferiam não se comprometer com o termo porque as "feministas eram radicais".
Hoje muitas destas mulheres mudaram de ideia e se posicionam como tal. Uma onda muito forte trouxe para o Ocidente o poder da mulher à tona. Elas ocuparam a presidência de países, ganharam maior representatividade na sociedade e a oportunidade de se expressar que antes era brecada.
E quem ficou no seu sofá que me desculpe, mas isso foi graças àquelas que eram chamadas de radicais. Então não existe isso de radical. O que existe é gente covarde e gente corajosa. Ponto.

E no filme, Laurel estava ocupando esse lugar. "A saída é individual", muitos também dizem isso. Ela não queria se posicionar a favor dos direitos dos gays, como casamento, adoção e etc. Queria igualdade de direitos e que pudesse deixar a casa para sua mulher. Ignorando tudo o que já havia sido lutado por outras pessoas a respeito disso.

Mas foi graças a uma bicha ativista maravilhosa que o caso ganhou força, o tribunal ficou cheio de gente e repercutiu nos jornais. E assim ela conseguiu o direito de deixar a casa.

Isso me lembra uma história. Aos 20, eu dizia categoricamente: "meus pais não precisam viver isso, minha família não precisa conviver, vivo bem sozinha e longe". Dividia isso com uma amiga 10 anos mais velha que já tinha passado pelo mesmo e ela rebatia: "e se a outra pessoa fizer questão?".
É isso. Vivemos em sociedade. A saída para uns pode até ser individual. Mas eu não quero se um indivíduo que fica dentro de casa quietinho para não incomodar.

Então é necessário reconhecer o que já foi feito até aqui. Pelos ativistas gays. Pelas ativistas feministas. Porque parece muito cômodo apenas aceitar de bom grado não termos mais que pedir licença para existir. Temos que avançar onde pararam. Mas sem deixar de reconhecê-los.

sábado, 16 de julho de 2016

Mitou

Audição obrigatória:

Li na fan page do blog de um cronista
uma matéria baseada no que disse um comentarista
de programa da tv a cabo
que pesquisou nas ruas sobre o episódio
e ouviu de um espectador,

que ouviu de um locutor no rádio
que o cenário já foi todo explicado
numa sessão da câmara dos deputados
interrompida por um político exacerbado
sobre o caso que já foi engavetado

mais de 5 vezes
segundo o artigo de uma revista isenta americana
que um artista fotografou e postou
indignado
sendo compartilhado por 1 milhão e meio
de indivíduos
semi-alfabetizados
número este comprovado pelo IBGE segundo dados estatísticos,
que depois viraram
memes infantilizados
que não podem ser contestados,

afinal
todo mundo concordou lá no trabalho
que a foto com a frase do lado
mitou!