quarta-feira, 25 de abril de 2018

O ex-covarde

Embora eu não endosse as posições políticas rodrigueanas aqui citadas, acho que este texto explica exatamente porque Nelson Rodrigues se tornou Nelson Rodrigues.
Sempre um alento para mirar na coragem.

O ex-covarde
Nelson Rodrigues

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".



RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

terça-feira, 27 de março de 2018

Pausa para o espontâneo

Minha cabeça ferve depois de um dia insano de bombardeio de perguntas no trabalho. Dados, números, respostas, justificativas. Minha mente turva quer descansar. Respiro fundo, esfrego os olhos que forçam a barra para fechar e lubrificar - onde está o óleo, agora das retinas? Penso na sucessão de acontecimentos dos últimos meses, dias, horas. E o que me vem à memória como sinônimo de alegria é aquilo que relaciono com espontaneidade. A aridez da rotina e do vício no celular quase que nos rouba a oportunidade diária de viver o espontâneo. Um sorriso brota no meu rosto quando me lembro que na semana passada, já era tarde da noite, e no ônibus para casa eu relembrava uma canção


A letra me faltou, recorri ao Google. Li e cantarolei. Não olhei para os lados, nem dei play. Apenas cantei seguindo a letra. Não muito alto. Quando parei - a endorfina saltava como após a aula de ioga - a moça ao lado me disse: que linda sua inspiração, estava cantando bonito.

Ri sem graça e me desculpei por não ter me dado conta e quem sabe ter atrapalhado o silêncio dela.
E assim iniciamos um bate-papo, o suficiente para eu saber que ela morou 10 anos na Alemanha, suas intenções políticas, o que pensa sobre a polícia, educação - lá no Velho Continente e aqui - e mais um par de assuntos.

Ela mesma me lembrou do quanto ficamos ensimesmados (tenho quase um tesão nesta palavra de tão única e certeira que ela é) em nossos aparelhos móveis - essas extensões corpóreas que nos prendem quase toda a atenção - e quão pouco espaço damos a esta conversa no ônibus.

Guardei aquele respiro e aquela sensação de bem-estar na minha memória. No sábado seguinte, no ônibus novamente, eu lia meu livro durante o percurso, quando decidi larga-lo e entrar na conversa de três adolescentes que falavam sobre uma bobagem qualquer.

Rimos. Eles não se sentiram desconfortáveis com a minha brincadeira. Segui. No metrô, na continuação do caminho para o meu destino, já não abri nem o livro, nem peguei o celular.

Desde a estação Butantã, apenas prestei atenção. Havia uma moça comendo uma fruta. 
Éramos somente eu e ela a não mirar nem o celular, nem outro objeto que tomasse nossa atenção.
Um vagão inteiro distraído.
Flertamos.
Desviamos os olhares.
Flertamos novamente.
Eu quis rir daquele fato inusitado. Acho que nunca havia flertado no metrô de São Paulo.

Observar alguém comer uma fruta e flertar com ela no metrô me causou estranheza e novamente uma sensação de endorfina liberada. Ela desceu na Paulista.

Andei mais uma estação e segui até o meu destino relembrando os pequenos prazeres no ônibus e do metrô e elucubrando sobre o quanto disponibilizamos de tempo e oportunidade para o espontâneo na árida rotina dessas capitais.

Quanto cabe em nossas rotinas uma mensagem espontânea com um "está fazendo o que? quer fazer algo agora?". Quanto cabe nos nossos dias desvios de percursos ou de atenção daquilo a que estamos programados a fazer?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O dia em que fui flanelinha de um flerte

Almoçávamos eu e Paula Bianchi na última semana de férias quando ela me contou de seu projeto: "A vida sexual da mulher hétero solteira no Rio de Janeiro". O adendo do hétero no título fica por minha conta.

Estávamos então relembrando as histórias de Paula - algumas que acompanhei de perto, outras de longe - e dando muitas risadas, quando então fui lembrada por ela do dia em que fui flanelinha de um flerte.

A coisa andava lenta. Paula já tinha ido passar um temporada na Europa e o rapaz - cuja identidade preservarei - também já tinha ido dar uns bordejeis internacionais. Nos desencontros, mensagens trocadas. Convites para chopps futuros e etc.

Era primeiro de janeiro de 2013. Nós tínhamos passado a madrugada do primeiro dia do ano trabalhando, cada uma para um veículo de comunicação. Sóbrias num mar de bêbados em Copacabana. Fim da labuta por volta das 4h. Eu já tinha caminhado aquela princesinha do mar que já não me aguentava. Em meio a busca de personagens, fotos e entrevistas com artistas que animavam a virada do ano e checagem de ocorrências nos bombeiros, eu só queria encontrar os amigos para um brinde posterior, ver o sol nascer no Arpoador e sentir que estava viva, vivinha e depois dormir o sono dos justos.

Assim fizemos. Derrotadas pelo cansaço no Arpoador, jurávamos que veríamos o sol nascer, independentemente da insistência maldita de um vento escroto que teimava em nos expulsar daquela Ipanema. Somos fortes. E lá ficamos até as 6h30. Um sol mixuruca, o vento teimoso e uma água gelada que me desencorajou a mergulhar de manhã - tradição esta que sempre mantive.

Demos de ombros e concordamos que a decisão mais sensata era procurar a padaria mais próxima e irmos dormir bem alimentadas. Eis que entre o mar de garis laranjinhas que limpavam a praia, encontramos o dito cujo. Primeiro dia do ano. Era a desculpa perfeita para o camarada convidar Paula para quitar a pendência do convite para o choppe. Ou que ela o convidasse. Nada feito.

O ano seguiu e o baile também. Praias, histórias, novos casos e no meio deles uma ida à Pedra do Sal. O sujeito aparece lá. Estaciona na nossa roda e de lá não arreda do pé. Arqueio as sobrancelhas com um sorriso de canto e falo entre os dentes para Paula: "é hoje".

Cerveja para lá, samba para cá, fotos de aniversário de Tassia, ou seja, isso já era (pasmem!) setembro!! O rapaz chama a gaúcha para comprar uma cerveja. E eu lá, na maior expectativa, pergunto na volta se finalmente rolou. Nada. A demora do bonde aumentava minha impaciência. Eis que estávamos na seguinte configuração: O menino na frente, Paula atrás e eu de frente para os dois. Decidi então que precisava fazer alguma coisa. Como um flanelinha, comecei a guiar os passos de Paula.

"Põe a mão no ombro dele", disse também entre os dentes enquanto ele prestava atenção na música. Vermelha, a gaúcha obedeceu. "Agora coloca a outra". "Chega mais perto". Bom, parece que depois disso o rapaz não tinha mais o que fazer, a não ser se virar e beija-la.

Entreouvido no trem

Moça dá play no áudio do whats:

- Po, desculpa mesmo. Não deu para pagar o boleto. A cerveja estava muito barata no Extra. Mas eu vou fazer de tudo para pagar até o Natal, para você não ficar sem este dinheiro. Se a gente não se falar mais, um Feliz Natal aí. Valeu.

~ prioridades ~

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

from: bela | to: fê



Oi, amiga!

Como está tudo aí? Você está bem? Está feliz? Teve bolo no seu aniversário? Já faz 5 anos que a gente não comemora juntas. Desde que você se foi eu fico confusa. Quero te homenagear no dia 7 de maio porque é quando nós aqui deste plano lembramos que você se foi. Mas lembro de você com mais alegria no dia 11. Você gostava dos aniversários, embora sempre ficasse tímida na hora do parabéns.

Nossa, Fê, desculpa eu ter levado tanto tempo para escrever novamente. Parece que quanto mais velhos ficamos, maior a autocrítica. Sentimos vergonha de tanta coisa... Bobagens da vida adulta.

Eu quis te escrever porque você me visitou no meu sonho. Lembro muito pouco. Passei a manhã inteira tentando me recordar dos detalhes e com a correria do dia já não me lembro de nada. Mas era um sonho bom, a gente se falava, conseguia se comunicar e eu fiquei muito feliz.

Logo depois da sua partida, você vinha me ver nos meus sonhos com freqüência, depois foi diminuindo... Esqueceu de mim? Ficou chateada com alguma coisa? Com raiva?

Olha, amiga, me desculpe se não dou toda a atenção do mundo para a sua mãe. Eu demorei um tempo, eu sei, mas agora a gente se fala no Whatsapp. Me sinto muito impotente quando me faltam as palavras para ela. Mas ela parece bem, tem uma nova criança que lhe da muito amor. Não sei quem ele é. Mas estão sempre juntos nas fotos do Facebook.

Ah, amiga, não sei se alguém te contou, mas o Dani está conseguindo realizar o sonho dele de viver de música. Ele participou este ano de um programa de novos talentos na tevê. Achei que você ficaria feliz em saber, mesmo ele tendo terminado daquele jeito estranho com você. A banda dele não ganhou o programa, mas eles conseguiram divulgar o trabalho e estão fazendo shows por aí. Fizeram um em São Pedro no fim de semana passado. Também vi no Facebook.

É, não to mais no Rio. Tem dois anos que vim para São Paulo. "Sempre indo para mais longe de mim", você me disse quando eu falei que quem sabe um dia viria. No fim das contas, você foi para bem mais longe, né? Nem sei como faço para ir aí te visitar. 

Como são os aniversários aí? Como é que se comemora? Tem algum ritual? Ou é só mais uma bobagem da vida terrena?

Tanta coisa aconteceu por aqui... não sei como é a vida aí, mas você faz muita falta do lado de cá. O mundo anda tão esquisito e as coisas aqui no Brasil... Me lembro de quando você estava estagiando no fórum e dizia que queria ser defensora pública. Acho que precisávamos de alguém como você numa defensoria. Tanta gente escrota fazendo quem tem menos passar perrengue. O Brasil está uma tristeza. Temos um presidente agora que tem como lema "retrocesso de 20 anos em 2". 

Os Estados Unidos perigam ter seu pior presidente. Um tal de Donald Trump. Aquele empresário. Um horror. O Reino Unido votou para deixar a Europa e está criando um muro para que refugiados não entrem lá. É verdade, esqueci de dizer, a Síria está em guerra há mais de 5 anos. Mais ou menos o mesmo tempo em que você partiu. Ta vendo, eu sempre digo, as coisas eram bem melhores quando vc estava aqui.

A novidade boa é que agora tenho meu cantinho. Ia ser legal se você pudesse vir me visitar um dia desses. Namoro uma menina que nasceu um dia antes de você. Vocês se parecem em algumas coisas. Rs

Queria passar uma tarde batendo papo com você, rindo e sei lá, tomando uma cerveja, uma caipirinha, um café. Sinto muita saudade. Espero que a gente possa se ver em breve.

Um beijo.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Projeto Genoma [parte II]

Respiro fundo com a notícia. Não esperava, mas não me choquei. Não bati a cabeça na parede como reagi quando Fernanda se foi. Também não gritei incrédula e inconformada. Processei a informação e contei para minha namorada, que acordou comigo falando em voz alta. Reportei a ela apenas, como faço no cotidiano do meu ofício. Sem drama, sem desespero. E isso me balançou.

Aline descobriu o câncer aos 20, durante a faculdade. Cursava Arquitetura na UFRJ. E por mais clichê que seja dizer que ela estava no auge da sua juventude, de fato estava. Tinha deixado uma vida inteira em Araruama para ampliar os horizontes no Rio.

Abri o Facebook. Vi lindas homenagens e então chorei. Finalmente. Foi um choro contido, mas o suficiente para eu relaxar e entender que meu quinhão de humanidade ainda me resta. Mesmo que o mundo cão que leio diariamente no meu trabalho me diga que não. 

Eu e Aline tínhamos uma diferença de 5 meses de idade. Nunca fomos próximas, nem quando me mudei para a cidade onde ela nasceu e morava. O que tínhamos em comum: a afinidade com Danilo. Afinidades diferentes, obviamente. E talvez essa disputa nos distanciasse mais do aproximasse. No fundo, queríamos afirmar a proximidade com ele. O primo mais velho que sempre causava com a sua excentricidade. O cara que usava saias e pintava as unhas de preto na tradicional família católica araruamense. Eles netos da mesma avó. Um laço forte. E eu que gostava de relacionar a minha excentricidade à dele.

O tratamento do câncer foi sofrido. Sete anos de idas e vindas ao hospital. Uma cirurgia que prometeu uma vida saudável. Retorno à vida cotidiana, faculdade, novo namorado. Câncer volta. Remédios foram ineficazes, descobriu-se. Nova cirurgia, outra promessa. Novo tratamento. Angústia, raiva, fé, desistência, artigos no Google, depoimentos encorajadores, depoimentos frustrantes. Emocional em frangalhos. 

Volto para o meu questionamento. Lembro de Diego. Lembro de Rodrigo. Passa uma semana e minha mãe vem me visitar. Rodrigo está mal novamente. Deprimido por ter de usar uma bolsa excretora. Minha mãe narra as novidades sombrias pelas quais ele passará e na minha cabeça azoes azinhos se multiplicam e martelam. Qual é a probabilidade? Somos 6 meninas e um menino. Os netos da vó Esmeralda. Teremos um de nós o quinhão da genética da bisa Edy?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Projeto Genoma [parte I]

Há coisas que são irreparáveis. Como aquela aquela amizade com uma rachadura que não volta a ser a mesma. Na mesma toada, a genética.

Os  azões azinhos eram interessantes, mas não o suficiente para eu querer compreendê-los às 7h da manhã daquelas aulas de Biologia do Ensino Médio. Há certas coisas que negamos porque assim preferimos. Outras porque somos incapazes de lidar. Talvez eu fosse incapaz de lidar com a genética naquele tempo. Justamente pela negação.

Esmeralda, minha avó materna, teve 3 irmãs - agora todas mortas - e 4 irmãos; dois deles ainda vivem. Assim simétrico mesmo: (para alegria de virginianos e outros metódicos no geral) 4 mulheres e 4 homens.

e de Esmeralda, a bisa Edy deixou de herança não só o nome para minha mãe, mas uma sentença em forma de genes para 3 bisnetos: um diagnóstico de câncer. 

Apita o celular. 342 mensagens da noite de sexta para sábado. Em grupos do aplicativo, pessoas falam de trabalho, outras apenas comentam qualquer bobagem. Tenho muito sono, não leio nada. Bato o olho numa mensagem solitária da minha mãe: "perdemos nossa Aline (acompanhado de um emoji)".

Aline, Rodrigo e Diego. Todos netos de filhas mulheres da bisa Edy. Antes de soltar um "que gene machista", lembro vagamente das influências dos cromossomos X e Y das aulas de Marco. Nunca fui aplicada em ciências biológicas, mas vá, memória ainda tenho, pensei. E o Temer ainda quer cortar disciplinas, resmunguei antes de apurar. Sim, bisa Edy também teve câncer, segundo dados revelados pela minha mãe mesmo.

Custo a acreditar. Não via Aline fazia tempo. Tinha notícias através da minha mãe, andava e virava ela estava às turras com a quimioterapia, mas tudo parecia controlado. Há 7 anos convivíamos com o câncer dela, não parecia que ela iria assim.

Mas pera lá, que merda é essa? Começo a perceber a conexão. Três primos, da mesma geração, netos de 3 irmãs. Minha boca ficou seca. Compreendi genética em 3 segundos. E danei a tentar me lembrar daqueles cálculos de probabilidade. Azão azão vezes azinho azinho. Ou seria azinho azão vezes azão azinho. Puta merda, não me lembro. Qual seria a probabilidade de um neto da minha avó reproduzir o gene? 75%? 100%?